Dinheiro e violência afastam brasileiros do acesso à cultura, aponta estudo
Levantamento da Fundação Itaú/Datafolha mostra que 88% da população consumiu atividades presenciais no último ano, mas o abismo social e o receio de assaltos e assédios ditam quem pode frequentar os espaços.
por Beatriz Araújo
Ir ao teatro, ao cinema ou a um show de música ainda esbarra em dois grandes muros no Brasil: o bolso e a falta de segurança. Um levantamento divulgado nesta quarta-feira (14) pelo Observatório Fundação Itaú, com apoio do Datafolha, revelou que, embora 88% dos brasileiros tenham realizado alguma atividade cultural presencial no último ano, a desigualdade de renda e o medo da violência continuam sendo os principais entraves para a democratização do lazer no país.
Para quem desiste de sair de casa por insegurança, os perigos assumem várias formas. O estudo, que ouviu mais de 2,4 mil pessoas em 137 municípios, aponta que 47% dos entrevistados temem roubos ou furtos perto dos eventos. A falta de policiamento afasta 43%, enquanto o perigo no trajeto é o obstáculo para 29%.
O recorte de gênero revela uma realidade ainda mais alarmante para as mulheres: 38% delas deixam de ir a eventos culturais por medo de violência ou assédio, contra apenas 14% dos homens.
Quando o foco muda para a economia, o abismo social fica evidente. O acesso à cultura é diretamente proporcional à renda. Enquanto 97% das classes A e B realizaram alguma atividade presencial no último ano, o índice cai para 82% nas classes D e E. A disparidade é gritante no cinema (63% dos mais ricos frequentam, contra apenas 18% dos mais pobres) e no teatro (41% contra 17%). Diante da falta de acesso a equipamentos privados, as ruas e praças se consolidam como os espaços culturais mais utilizados pelo brasileiro (68%), seguidos por igrejas (61%) e parques (54%).
Outro dado que chama a atenção é o desconhecimento da população sobre seus próprios direitos. A pesquisa investigou, pela primeira vez, o entendimento sobre os direitos culturais garantidos pela Constituição. Entre os brasileiros com ensino fundamental ou pertencentes às classes D e E, a fatia dos que não sabem sequer explicar o que significa o “direito à cultura” chega a 46% e 40%, respectivamente.
No consumo doméstico, o digital domina o lazer diário: a música on-line (85%), os filmes (76%) e as séries em streaming (73%) lideram a preferência, consolidando as telas como a principal válvula de escape cultural, onde o medo das ruas não alcança.







